Xadrez Escolar e desempenho acadêmico

Durante esse ano acompanhei notícias nas diversas mídias sobre escolas que têm mostrado bom desempenho em competições escolares e escolas que têm bom desempenho acadêmico e que tem xadrez no currículo, seja como atividade curricular ou extracurricular.  Muitas compartilhadas por mim no Facebook e Twitter.

Porém percebi que o mais importante não aparece nessas notícias: a relação xadrez / desempenho acadêmico.  Pelo menos, não lembro de ter visto nenhuma tentativa de esclarecer como o primeiro contribui com o segundo.  E antes de mais nada, uma pergunta central: o xadrez realmente contribui com o desempenho acadêmico dos alunos?

Essa é uma pergunta que alguns pesquisadores têm tentado responder ao longo de décadas e as evidências são bastante convincentes.  Embora Campitelli (in filguth, 2007, p. 183) aponte a necessidade de maior rigor nas pesquisas com esse fim.

Aproveitando o momento de balanço característico de final de ano, resolvi dar a minha contribuição nesse caminho,  explorando alguns casos, ainda que de forma subjetiva.

Caso 1

O aluno UM é do terceiro ano tráz a experiência de xadrez de anos anteriores, porém, desde o início do ano vem mostrando dificuldade em jogar de acordo com as regras do jogo.

Passei o ano dizendo para ele que é possível vencer respeitando as regras, pois ele tem conhecimento para tal.  Foi gratificante vê-lo sorrir todas as vezes que logrou êxito nas suas jogadas.

Se para ler e escrever é preciso seguir algumas regras (da esquerda para a direita, de cima para baixo, etc…), tudo nos leva a crer que internalizar regras contribui para essas aquisições.

Caso 2

A aluna DOIS, também do terceiro ano,  demonstra grande dificuldade de organização espacial e de compreender regras.  Deslocar as peças no tabuleiro foi uma tarefa árdua assim como a interação com os parceiros de jogo, devido a “ausência” de auto-regulação.  A alternância do jogo (jogo eu e depois você) parecia inaceitável.

Já é sabido de longa data que a orientação espacial tem papel fundamental na aquisição da leitura, da escrita e dos cálculos.  Na medida que essa organização vai se aprimorando (processo) no tabuleiro sua “transferência” pode ser mediada para outras áreas do saber.

Com a “regulação recíproca” a aluna pode perceber que “ninguém é uma ilha”.  O xadrez tem uma característica que considero das mais interessantes entre os jogos: não tem juiz (dimensão ética).  Ou pelo menos, não tem o juiz acompanhando lance a lance para dizer para os jogadores quem e como infringiu as regras.  Essa regulação é feita pelo próprios jogadores e só por eles.  O juiz é convocado para ratificar o que já foi “resolvido” entre as partes.

Caso 3

O aluno TRÊS, na verdade, reune uma série de alunos.  O TRÊS no inicio do ano jogava de forma impulsiva. De tanto ouvir “primeiro encontra a solução depois toca na peça”, ou seja, antecipe, abstraia, memorize, terminaram o ano com maior poder de abstração e antecipação.  Componentes importantes das funções executivas mobilizadas tanto para jogar xadrez quanto para resolver quaisquer outros tipos de problemas: de leitura, de escrita, de cálculo, etc.

O difícil é saber quem veio primeiro: esses alunos melhoraram (mesmo que minimamente) a aprendizagem porque potencializaram o desenvolvimento (especialmente das funções cognitivas e executivas) ou a medida que aprenderam o desenvolvimento se deu?

Estou com VIGOTSCK: as duas se influenciam mutuamente.  Quanto mais se aprende, mais o cérebro se desenvolve.  E quanto mais o cerebro se desenvolve mais se aprende.

Então, respondendo a pergunta inicial (o xadrez realmente contribui com o desempenho acadêmico dos alunos?), arriscaria dizer, sem a pretenção de ter esgotado o tema, que quanto mais se aprende, mais se aprende.  Há, cada vez mais evidências de que o aprendizado e a prática sistemática e mediada do xadrez pode contribuir para um melhor desempenho acadêmico dos alunos.

Para saber mais leia:

CAMPITELLI, Guillermo e GOBET, Fernand.  Uma revisão crítica sobre os benefícios da instrução enxadrística in FILGUTH, rubens.  A importância do xadrez.  Porto Alegre: Artemed, 2007.

VyGOTSCK, Lev.  Formação Social da Mente. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

______________. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Editora, 2008.