Crônica de uma vitória enxadrística

… Dama preta na casa b7; um Bispo em d5, atacando o Rei branco e o outro em c5.  Fujo com o Rei para a única casa segura: h8. E agora vem o golpe de misericórdia: Bispo preto em d4!  Xeque mate!!!  Eis que se abre um grande sorriso naquele rostinho que passou o ano apreensivo com as dificuldades nas tarefas escolares.

Esse poderia ser mais um jogo, não fosse o fato do vencedor ser um aluno com histórico de grandes dificuldades na aquisição da leitura, escrita e cálculos.  Apesar de estar no quarto ano, só agora seu processo de alfabetização  está sendo concluído.  Do outro lado do tabuleiro?  Eu, a professora de xadrez!

Ele entra na sala, que tem dividido com os poucos colegas que ficaram em recuperação, em estado de êxtase!  Sem acreditar ainda no seu feito!  Diz para a Professora: “Pergunta a professora de xadrez o que foi que aconteceu na aula.”  E a Professora vem curiosa…  Respondi com lágrimas nos olhos (absolutamente emocionada) e aproveitamos o momento para compartilhar nossas dúvidas e inseguranças quanto ao destino do aluno.

Na sala os colegas querem saber como ele fez para “ganhar da professora?”.  E ele, não se cansa de explicar e refazer a sequência de lances.  Ao bater o sinal, às 17h15min, ele vai direto para a sala da direção contar orgulhoso seu feito.

Os colegas me perguntam:

– Tia, você deixou ele ganhar?”

Respondo:

– Cometi um erro e ele aproveitou para me dar um duplo (quando uma peça ataque duas ou mais peças do adversário ao mesmo tempo), tomando a Torre qu eu estava preservando para dar o mate de Rei e Torre.

Parafraseando Anatoly Karpov (um dos maiores enxadristas da história mundial): “No xadrez ganha quem comete o penultimo erro”.  Eu cometi o último e ele, fazendo um jogo primoroso, não me deu chance de corrigir ou de leva-lo ao erro.

Um pequeno episódio pedagógico com grandes lições.  Ele demonstrou operar com conhecimentos e conceitos do xadrez trabalhados ao longo do ano, especialmente o difícil e abstrato conceito de Xeque mate.  Planejou, antecipou, monitorou o erro, ou seja, funções executivas “a pleno vapor”!

Não tem como inferir de forma direta o impacto, a repercussão dessa vitória (e de todo o processo cognitivo para chegar até ela) para as aprendizagens vindouras dele.  Mas tudo indica que a médio e/ou longo prazo os frutos serão colhidos.

Ele merece!!!