REGRAS DE XADREZ: REFLEXÕES PEDAGÓGICAS (Parte I)

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As aulas de Educação Física têm contribuído muito para a inserção do xadrez nas escolas brasileiras.  É bastante significativa a quantidade de professores que incluem o “Jogo dos Reis” em seus planejamentos.  Muitos estão a frente dessa disciplina (vamos assim chamar o xadrez quando estiver incluso no currículo escolar)  quando a mesma é incluída no currículo da escola ou ainda quando é oferecida como atividade extracurricular. 

A inclusão do xadrez como conteúdo das aulas de Educação Física encontra respaldo nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), podendo ser “enquadrado” como esporte ou como jogo de tabuleiro (p.70). 

Estando o xadrez inserido nesse grande “caldeirão” que é a Educação Física, várias discussões pertinentes a área recaem também sobre ele.  Como exemplo posso citar duas: especialização precoce e “esporte na escola x esporte da escola”.  Convido você a tomar parte na reflexão sobre esse  último tema.

Ao optarmos por utilizar “A Arte de Caissa” como conteúdo de ensino nas aulas de Educação Física, como uma atividade curricular ou extracurricular, o tratamento dado às regras deve ser o mesmo proposto por Sávio Assis em seu livro “Reinventando o Esporte” (2005) para os demais esportes.

Segundo o autor acima citado, as regras não definem o jogo, apenas dirigem, regulam e modelam o andamento do mesmo.  E quando se quer mexer em alguma dessas variáveis, alteram-se as regras.  Isso nos abre uma possibilidade pedagógica de trabalhar com regras adaptadas e/ou criadas pelos próprios alunos.  No entanto, Sávio Assis de Oliveira alerta para a importância de os alunos conhecerem as regras oficiais.

Como fica isso no caso do xadrez?

Para responder essa pergunta, vou utilizar o exemplo de um artigo específico das regras da Federação Internacional de Xadrez (Federation Internationale des Echecs – FIDE): o artigo 7.4..

Esse artigo trata das penalidades previstas para o “lance ilegal” popularmente chamado de “lance impossível” (essa expressão não existe na referida lei).

Configura-se como lance ilegal ou impossível, por exemplo, colocar seu próprio Rei em xeque, ou seja, em uma casa atacada por uma peça adversária.  Ou ainda, estando seu Rei sob o ataque de uma ou mais peças adversárias, você executar um lance que não o salve.  Existem outras situações, mas essas  duas são frequentemente vividas por alunos iniciantes.

O que diz a regra?

 “7.4.a. Se durante uma partida descobrir-se que um lance ilegal (grifo nosso), inclusive falha no ritual de promoção de um peão ou captura do rei do oponente, tiver sido completado, deverá ser restabelecida a posição imediatamente anterior à irregularidade. Se a referida posição não puder ser reconstituída, a partida deverá continuar a partir da última posição identificável, anterior à irregularidade. Os relógios deverão ser ajustados de acordo com o Artigo 6.13. Os Artigos 4.3 e 4.6 aplicam-se à jogada que for feita em substituição ao lance ilegal. A partida deverá então continuar a partir da posição restabelecida.”  (BENTO, Antônio. Leis da FIDE, por AL Antônio Bento. retirado de http://elciomourao.files.wordpress.com/2010/04/lei-do-xadrez-da-fide.pdf em 28/02/2012)

Perceba que a penalidade está ligada diretamente a utilização de um dos equipamentos mais caros da prática enxadrística: o relógio de xadrez (artigo 6.13),  raro na maioria das escolas brasileiras, sejam elas públicas ou privadas.

E a regra continua ainda tendo como referência o relógio:

 “7.4.b. Após a adoção das ações descritas no Artigo 7.4.a, para os dois primeiros lances ilegais feitos por um jogador, o árbitro deverá dar dois minutos extras ao oponente, a cada instância; para o terceiro lance ilegal efetuado pelo mesmo jogador, o árbitro deverá declarar a partida perdida para este jogador (grifo nosso). Entretanto, a partida está empatada quando se alcança uma posição em que o oponente não pode dar xeque-mate no rei do adversário por qualquer sequência de lances legais possíveis.”  (BENTO, Antônio. Leis da FIDE, por AL Antônio Bento. retirado de http://elciomourao.files.wordpress.com/2010/04/lei-do-xadrez-da-fide.pdf em 28/02/2012)

Pois bem, levando em consideração as colocações de Sávio Assis e a falta de relógio na maior parte das escolas, é comum aplicar-se apenas parte do que é exposto no artigo 7.4.b, ou seja, após o terceiro lance impossível o aluno perde a partida, já que a falta do relógio torna impossível o acrescimo de tempo para o oponente.

No que tange as competições oficias (subordinadas a FIDE), não existem partidas sem relógio.  No que tange as aulas de Educação Física, as atividades curriculares e extracurriculares oferecidas pelas escolas, a falta do relógio não é um impeditivo.  Ainda que os dois minutos não sejam acrescidos ao tempo do oponente, não temos prejuízo na  potencialização das funções cognitivas e executivas envolvidas nessa prática. A dimensão ética do jogo está preservada, assim como a capacidade de análise e síntese exigida dos alunos, entre outras coisas.

Sendo assim Professor, não há nenhum pecado em dizer para o seu aluno que após o terceiro lance impossível ele perde o jogo.  Lembre-se de garantir que ele terá acesso, de alguma forma, ao que diz a regra FIDE, pois ele tem direito a esse conhecimento, mas não se prenda a ele.  A nossa práxis pedagógica no xadrez deve ser para muito além do xeque-mate.

E você?  O que pensa sobre esse tema?

Alguma sugestão para discutirmos na parte II?

BIBLIOGRAFIA

BENTO, Antônio. Leis da FIDE, por AL Antônio Bento. retirado de http://elciomourao.files.wordpress.com/2010/04/lei-do-xadrez-da-fide.pdf em 28/02/2012.

 ASSIS DE OLIVEIRA, Sávio.  Reinventando o esporte: possibilidades da prática pedagógica.  2 ed.  Campinas, SP: Autores Associados, 2005.